Morar fora e o que pode dar errado

Eu acho que a oportunidade de morar em outro país é uma das mais valiosas que podemos ter durante a vida. É é normal que, quem vai viver isso pela primeira vez, tenha uma alta expectativa. E como você sabe, a expectativa é proporcional ao tamanho da sua desilusão. Ou seja, nem tudo vai ser como você sonhou.

Mas no caso de morar fora, isso pode não ser ruim. Dá para você transformar o limão numa deliciosa limonada inesquecível se você for esperto. Você pode passar por tanto perrengue que é justamente isso que vai deixar a sua temporada fora do país especial, baseado em aprendizado, amadurecimento, autoconhecimento e aventura.

Mas para você não ter tantas surpresas assim, decidi contar aqui algumas coisas que podem dar errado durante esse tempo em outro país. Lembrando que não são regras. São apenas histórias baseadas na minha experiência pessoal de morar quatro anos nos EUA junto com as histórias de outros amigos. Com certeza a sua experiência não será igual a minha, mas não custa dar uns conselhos baseados no que aprendi.

Amigos

Eu tinha acabado de me formar quando me mudei para os EUA. Havia passado cinco anos perfeitos na faculdade, com muitos amigos, morando em república e mudei para os EUA duas semanas depois da minha formatura – a qual foi comemorada muito bem, fechando esse ciclo universitário com um coma alcoólico no hospital, mas isso é tema para ooooutro blog. Bom, mas chegando nos EUA, eu fui para o outro extremo e de repente não tinha amigo nenhum. Conheci muitos brasileiros, mas resisti por bastante tempo porque eu queria imergir na cultura americana. Mas fazer amigos americanos não é fácil (e imagino que em outros países deve funcionar da mesma forma). Eu tinha aula na Universidade de Minnesota mas meus colegas de sala nem me davam bola. E no trabalho, a maioria das pessoas eram mais velhas ou casadas e, apesar de adorar todo mundo, não éramos amigos fora do trabalho.

Acabei fazendo poucos amigos americanos e alguns brasileiros durante os meus quatro anos morando em outro país. E a resistência a ter amigos brasileiros foi diminuindo conforme o tempo foi passando e eu não tinha previsão de voltar ao Brasil.

Conselho: Se você for ficar no máximo um ano, tente (mesmo sendo difícil) fazer amizade com as pessoas daquele país que você está morando. Até na dificuldade de fazer amizade e se “infiltrar” você aprende sobre a cultura do país. E se nada der certo… até na solidão você aprende.

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Amigos do trabalho. Uns fofos que eu ADORO! Mas dá pra ver que não dava pra estender muito a amizade para outros lugares.
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Amigos lá na minha casa gringa. Dá pra ver que tem brasileiro e gringo, né? Saudades…

Se sentir sozinho

Eu precisaria de um post inteiro só pra falar sobre a solidão, porque eu vivi MUITO isso (não durante os quatro anos, mas a solidão ficava indo e vindo o tempo todo). Não significa que todo mundo passa por isso, mas as chances são grandes. Afinal você está em outro país, longe de todo mundo, das pessoas que mais te amam e te apoiam, tentando fazer amigos e nem conseguindo se comunicar direito. Eu caí tanto nessa carência que fiquei um ano namorando um gringo que eu nem era apaixonada só pra ter alguém em quem me apoiar (funcionou até o dia em que ele resolveu terminar comigo e aí eu tive que me virar). Mas posso te afirmar que foram nesses momentos de solidão que eu mais aprendi sobre mim e sobre o que eu queria da vida.

Conselho: Aproveite para focar em você nos momentos de solidão e não colocar a culpa no país que é uma “droga” e “as pessoas são um saco” e “ninguém sabe se divertir por aqui” e “odeio inverno”. A solidão é sua e a culpa não é do país. Portanto se concentre nela e aproveite para se conhecer, descobrir o que você quer fazer da vida e pensar quais são as coisas mais importantes pra você.

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Podem te fazer de idiota

Vou contar uma historinha para ilustrar esse tópico. No lugar onde eu morava não tinha como não ter carro. Então a minha meta durante os primeiros meses foi juntar o que eu conseguia do meu salário de US$8/hora para comprar um carro – afinal você consegue comprar um carro nos EUA a preço de banana e roda com ele pra sempre. Juntei US$800 e comprei um carro que nem existe no Brasil, um Corsica,  de uma pessoa “super de confiança” que trabalhava na mesma empresa que eu há uns 30 anos e ainda era mecânico! Ele me vendeu dizendo que o carro estava ótimo, sem problema nenhum. Três semanas depois o carro simplesmente pifou e para consertar eu teria que pagar US$1500, ou seja, mais caro do que havia sido o carro. Claro que fui reclamar com o cara e não adiantou nada. Como ele tinha me vendido um carro zuado?! Puxa, gente, eu tinha guardado TODO o meu dinheiro pra isso! Não havia me sobrado mais nada. O mais engraçado é que o meu chefe na época era irmão desse cara e ouvindo meu lamento ele só olhou no relógio e disse: “Well, daqui a pouco você recebe o seu salário novamente” – como se ele não soubesse que o meu salário não daria para consertar ou comprar outro carro. Essa foi a situação em que mais me senti uma idiota em outro país. Fazia três meses que morava lá, tinha uma péssima impressão de tudo, me sentindo sozinha e sem ter o que fazer. Nessas horas, gente, desculpe a minha fraqueza, mas eu sentei na escada da minha casa e chorei tudo o que eu podia durante um sábado inteiro.

Conselho: Não é porque você é um estudante/trabalhador pobre, brasileiro super gente boa que as pessoas vão ter dó de você e não vão querer abusar da sua inexperiência e ingenuidade. Portanto, se posicione e confie em você (mas sem a malandragem brasileira ridícula, tá? Isso não é se posicionar). Depois de chorar aquele sábado inteiro, aprendi, levantei a cabeça, perdi a vergonha do meu inglês mais ou menos, fui até o cara e falei o quanto ele havia sido desonesto e golpista de me vender um carro zuado. E como não tenho sangue de barata, finalizei com um “you are an asshole!”. Na verdade, isso serviu mais de lição pra mim do que pra ele. Aprendi a não ter vergonha do meu inglês, que eu não deveria me diminuir porque era brasileira e e que a partir daquele momento eu deveria ser forte porque muita coisa ainda iria dar errado. A Amanda bobinha morreu junto com aquele carro.

Host family chata

Eu nunca tive uma host family mas posso dizer que sempre fui muito bem recebida pelas famílias que conheci. Muitas me convidavam para almoçar em suas casas aos finais de semana e eram curiosos com os nossos costumes. Mas tenho várias amigas que trabalhavam como babá, por exemplo, e tinham que viver nas casas com as famílias. Nem todas tiveram uma boa experiência mas a maioria delas teve uma ótima relação com as famílias. Uma vez ou outra ouvi alguma história não tão bem sucedida.

Conselho: Caso isso aconteça, entre em contato com a agência de intercâmbio e avalie a possibilidade de mudar de host family. Essas famílias supostamente passam por um processo seletivo pela agência e são abertas a intercambistas. Mas pode acontecer de não dar certo. Se esse for o seu caso, consulte a sua agência sobre como proceder.

Thanksgiving
Um jantar de Thanksgiving com uma família americana. Sempre fui bem recebida.
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É assim que se faz um autêntico peru de Thanksgiving. Deep fried turkey!

Aprender outro idioma não é fácil

Eu já havia feito um curso de inglês quando fui para os EUA, mas chegando lá descobri que sabia menos do que imaginava. Aliás, essa é uma descoberta normal. Você está aqui dizendo pra todo mundo que é fluente no idioma mas chega lá e descobre que as pessoas não entendem o que você fala, que você não sabe um monte de palavras e que também não aprendeu direito as conjugações verbais. Mas isso não tem problema! Afinal, uma das razões pelas quais você se mudou pra lá provavelmente é para aprender o idioma, não é mesmo? E geralmente esse processo funciona assim: você primeiro entende melhor e fala pouco. Uns 3 meses depois você está bem mais solto para falar e aí sim é que você começa a aprender o idioma de verdade. Mas claro que tudo depende do seu esforço e facilidade também. Conheço pessoas que ficaram um ano e não voltaram com o inglês tão fluente.

Conselho: Para aprender bem um idioma, fique no mínimo 3 meses, estude, tenha paciência e não tenha vergonha de falar e pedir para te corrigirem.

Clima diferente do Brasil

Pode acontecer de você ir para um lugar com um clima bem diferente do Brasil. Quando fui morar em Minnesota eu sabia que era muito frio, mas eu não sabia o que era -30°C e nem o que isso traria para a minha vida. São seis meses de inverno, os quais sempre passei depressiva e sonolenta devido a um sintoma chamado SAD (Seasonal Affective Disorder), que é uma depressão causada pelo inverno. Eu dormia até no horário de almoço do trabalho! E a depressão vinha naturalmente, inclusive pela falta de luz (anoitecia às 17h). Essa questão da luz influencia tanto, que as pessoas por lá costumam fazer bronzeamento artificial ou tomar banho de luz só para o humor melhorar. Masss, apesar dessa depressão toda, esses anos de inverno ensinaram muita coisa sobre mim e sobre essa “cultura” do inverno. Hoje sei o que realmente significa conviver com a neve por tanto tempo. Desde como isso afeta uma cidade e as pessoas até como se dirige com neve, como se vestir, porque é necessário ter aquecedor nas casas, enfim… E hoje eu AMO inverno!

Conselho: Ir para um lugar com um clima oposto ao do Brasil torna a sua experiência mais valiosa ainda. É como se você fosse morar em outro Planeta. Juro!

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Essa era a rua da minha casa no inverno

Não gostar do seu novo país

Reclamação sobre os países é o que eu mais ouço. As pessoas querem tanto, mas tanto morar um tempo fora e quando chegam lá descobrem que não é nada como imaginavam. O que você pensa antes de ir: vou chegar lá, fazer vários amigos gringos porque as pessoas vão se interessar por mim só por eu ser brasileira, ficar viajando o país inteiro, comprar roupas baratas, comer coisas diferentes…”. Mas lembre-se: você não está viajando. Você está morando nesse país e vai ter uma rotina lá também. Como pode ser na verdade: talvez você não tenha tanto dinheiro pra comprar e viajar como queria, talvez tenha que cortar batatas num bar pra ganhar um extra (um amigo meu fazia isso em Dublin, cortava batatas a noite inteira), os gringos não estarão nem aí para serem seus amigos, se você for mulher terá que ouvir aquela velha história de como as brasileiras são sexy, se for homem você vai ficar com qualquer mulher que aparecer só pra dizer que ficou com uma gringa, você vai se cansar daquelas mesmas comidas gordurosas que fazem parte da cultura do país e assim vai. E a partir de toda essa desilusão você começa a não curtir tanto o país que escolheu pra morar.

Conselho: Tudo bem você se desiludir e não gostar tanto do país enquanto estiver lá. Mas quando você voltar, é bem provável que lembre de tudo com carinho. Uma coisa boa é não criar muitas expectativas antes de ir porque assim você se decepciona menos.

Trabalho

Dificilmente o trabalho lá fora será aquele que você sempre sonhou (já é difícil encontrar um trabalho bacana aqui no Brasil, imagina em outro país!). Esses dias mesmo um leitor me escreveu contando que estava super feliz porque faria um trainee nos EUA e queria saber melhor como foi a minha história. Trocamos algumas figurinhas e um tempo depois ele me escreveu de volta dizendo que já tinha chegado lá, se decepcionado e querendo saber como fazia para trocar de trabalho (o que é difícil e varia para cada situação e visto). Se você vai trabalhar no McDonald´s, no Dunkin´Donuts ou qualquer coisa nessa linha, você já sabe o que esperar… Tenho amigos que foram trabalhar em estações de ski e também não foi o melhor dos mundos. Como trainee, a impressão que dá é que será um pouco melhor, afinal você vai utilizar os seus conhecimentos da faculdade. Pois é… nem sempre. Eu cheguei nos EUA para fazer trainee tendo que trabalhar debaixo de neve ou até fazendo um trabalho de peão, tipo capinar no campo (me formei em Agronomia, lembra?). Só depois que fui efetivada é que a minha vida melhorou. Ou seja, trabalho é trabalho em qualquer lugar do mundo. E pode ser até pior em outro país…

Conselho: Em outros países sempre há limites para trabalhar devido aos vistos. Mas você pode tentar trocar de trabalho ou desistir e voltar para o Brasil. Eu segui uma linha de “sem mimimi, engole o choro e foque nos seus objetivos”. E de oito trainees só sobraram dois, sendo que eu fui uma deles. Contratada como uma funcionária de verdade, consegui uma vida de “americana”. Mas anos depois, quando o trabalho me encheu o saco, eu também não encontrei outra alternativa senão a de voltar para o Brasil e recomeçar aqui, onde pelo menos eu era livre para trabalhar onde quisesse. Por isso meu conselho é: faça o que você achar melhor para a sua carreira analisando o que você quer da sua vida.

Você pode gostar e não poder ficar

Mesmo com todos esses problemas acima, você pode gostar da sua temporada em outro país e não poder ficar (pode ser pelo visto, pode ser por pendências no Brasil, questões familiares, etc.). Vai dar uma tristeza de partir misturada com a alegria de rever as pessoas no Brasil. Isso acontece principalmente porque você vai perceber que, apesar de todos os perrengues, você aprendeu muito e até se transformou numa pessoa mais madura e preparada. Foi como eu disse em outro texto: na volta, você pode perceber que o mais importante da viagem não foi o país em que morou, mas a pessoa em que você se transformou.

Conselho: Faça o que é necessário. Portanto, se você precisa voltar, volte. A boa notícia é que o mundo é enorme e as oportunidades só não surgem para quem não corre atrás. Quem sabe nos próximos anos você não está se mudando novamente para outro país?

Ilustração: Corbis para Forbes

 

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