Quando é hora de ficar em casa

Pego a mala, coloco o salto, saio correndo de casa, táxi para o trabalho, conference call. Liberada. Troco de roupa no banheiro do trabalho: legging e tênis. Pego a mala e o notebook. Táxi para o aeroporto. Respondo e-mail pelo celular. Alguém me liga ainda no caminho do aeroporto. Pepino. Moço, você acha que eu vou chegar a tempo? Muito trânsito nessa sexta-feira de carnaval, né? Chego a tempo, despacho a mala. Mas o computador não. Tenho que enviar umas apresentações ainda. Ligo para o meu chefe para dar uma posiçãIMG_4488o daquela reunião. Respondo e-mail. Posto uma foto no Instagram. Verifico se o post que escrevi ontem à meia-noite está indo bem. Espera. Mais um e-mail. Gente, é sexta-feira de carnaval! Parem de trabalhar. Ligo para os meus pais. Boa viagem! Hora de entrar no voo. Mais algum e-mail para responder? Não. Ok. Mini férias começa agora. Conexão de 5 horas em Bogotá. Durmo no aeroporto. Conexão de duas horas em Lima. E finalmente, Cuba. 8 dias. Mini férias acabam. Hora de voltar. Mas tem conexão. Passo a noite dormindo no aeroporto de Lima. Finalmente o voo para São Paulo. Trabalho no dia seguinte das 8h à meia-noite. Aliás, a semana inteira. Mas na sexta-feira faço a mala. Saio mais cedo do trabalho. Computador debaixo do braço. Ônibus para interior de São Paulo. Volto domingo à noite. De segunda à quarta trabalho até meia noite. Na quinta pego a mala, levo para o trabalho. E-mail avisando a todos que hoje saio mais cedo. 15 horas. Pego táxi para o aeroporto. Computador debaixo do braço. E-mails pelo celular. Despacho as malas. Mas o computador não. Ligo o carregador dele na tomada. Trabalho até a hora de entrar no avião. O avião decola. Ligo o computador. Trabalho. Santiago às 23h30. Sexta, sábado e domingo no Chile. Volto segunda-feira às 5 da manhã. Avião pousa em Guarulhos ao meio-dia. Celulares podem ser ligados. Leio os e-mails do trabalho. Ligo para resolver pepinos. Já já estou aí. Mala na mão. Airport bus e depois táxi direto para o trabalho. Chego em casa às 20h30. Doente.

E foi aí que me dei conta de que fazia um mês que eu não ficava em casa. A maior parte do mês passei viajando, e o resto dos dias chegando tarde da noite do trabalho e acordando cedo para trabalhar.

O estilo de vida que adotei, “viajaremtodaoportunidadenãoimportacomomesmoque
eutenhaquevirartrêsetrabalhardoaeroportooudeumhostelemoutropaís”, trás algumas consequências não planejadas. Tudo é festa quando se compra a passagem, negocia horário no trabalho, reserva a hospedagem. É fácil pegar o avião. Mas quero ver você explicar para o seu corpo que vai demorar um dia para chegar ao destino porque não tinha dinheiro para comprar um voo direto. Ou que, como não tem arroz e feijão no país, você vai comer frutos do mar a semana inteira que provavelmente estarão intoxicados. Ou que, mesmo acordando às 5 da manhã e pegando um voo de quatro horas, você consegue trabalhar até às 20h. Isso tudo depois de não conseguir dormir porque seu hostel tinha festas que iam até às 6 da manhã.

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Dormindo no aeroporto de Lima em uma das conexões

Meu organismo não entendeu nada disso depois desse mês “turbulento”. Passei mal, a resistência caiu, fiquei fraca, de cama e tomando remédio. E percebi que meu corpo pedia descanso. Era hora de ficar em casa tranquila. E, além do mais, voltar à “vida real” depois de uma viagem torna a próxima ainda mais especial, não é mesmo? Então desfiz a mala, comprei flores para enfeitar e decidi ficar enrolando na cama o final de semana inteiro. Adoro isso! Adoro casa! É a minha maior contradição: gostar de viajar e de ficar em casa. E assim fiquei, apenas me aventurando nos filmes da TV a cabo, feliz da vida.

Mas aí, enquanto arrumava meus livros na estante, ela veio: uma ideia incrível para a próxima viagem. E sem culpa, já me animei de novo… Planejar, meu corpo deixa.

Ilustração: Getty Images

 

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