Mudar-se do Brasil para sempre pode não ser a solução da sua vida

Mudar-se do Brasil para sempre pode não ser a solução da sua vida

É compreensível que haja tantas pessoas querendo se mudar do Brasil para sempre. Vivemos num país violento, corrupto, com sistema de educação e saúde ruins e temos sempre a sensação de que merecemos mais. Principalmente quando viajamos para outros países ou vemos reportagens que dão a sensação de que a grama do vizinho é bem melhor.

Eu sinto tudo isso também. E, por outro lado, sei muito bem como é a sensação de viver em um país de primeiro mundo depois de ter morado por quatro anos nos Estados Unidos. Eu morava num lugar bacana e seguro, com um super carro que paguei barato, trabalhando na área de minha formação, comprando roupas todos os finais de semana e viajando todos os feriados… Eu tinha uma qualidade de vida que nunca tive no Brasil. E por uma decisão minha eu voltei. Mas não vou detalhar neste texto as razões para tal escolha (da qual não me arrependo). Mas gostaria de te ajudar a pensar melhor sobre o assunto, perguntando: o que é qualidade de vida para você? Ou melhor, como é a  vida de qualidade que você deseja ter? Para responder essa pergunta, é necessário incluir na sua conta de “como viver lá fora é melhor” alguns itens além de segurança, do carro mais barato, da melhor educação…

São alguns deles:

Família

Não importa se você vai sozinho ou acompanhado. Mas é provável que alguém bastante querido da sua família não vá com você. No meu caso, eu sentia falta da minha família em datas especiais, como aniversários ou, por exemplo, quando meu irmão passou no vestibular. Nessas datas eu só conseguia ter um gostinho de felicidade pelo Skype mas sempre precisava desligar porque minhas família estava saindo para comemorar em algum lugar seguido da frase “pena que você não está aqui para ir com a gente”. E existem os momentos ruins também. Um amigo perdeu a mãe repentinamente e não estava no Brasil havia um ano. Não conseguiu nem vir ao velório dar uma força para os irmãos e o pai. E você? Quanto essa ausência familiar vai interferir na sua qualidade de vida lá fora?

Amigos

Você pode fazer novos amigos lá fora ou não. Mas talvez não seja uma amizade como aqueles seus amigos de colégio. E pode ter certeza, os churrascos de sábado vão continuar sem você e talvez você ainda tenha que ver as fotos depois, para piorar a situação. Tem ainda aquele casamento da sua melhor amiga que você talvez não consiga participar. Ou você pode simplesmente perder o contato de amigos queridos. O quanto não ter seus grandes amigos por perto (e talvez nenhum amigo) vai interferir na sua qualidade de vida lá fora?

Recomeçar a vida

É realmente muito legal a oportunidade de recomeçar a vida. Você, resumidamente, terá que fazer novos amigos, provavelmente arranjar um novo trabalho, encontrar uma casa onde você sinta que pode viver para sempre e falar e ouvir um outro idioma o tempo todo. E tudo isso não é tão fácil quanto parece, afinal você estará num lugar desconhecido, sendo um estrangeiro, onde você mal conhece as leis e provavelmente será o último da fila para conseguir um emprego que deseja. O quanto você está disposto a recomeçar sua vida do zero?

Ser sempre o estrangeiro

Vamos dizer que você esteja ganhando super bem lá fora, num emprego que você adora, na casa e carro que sempre sonhou sem ninguém tentando te matar na esquina. Ainda assim, você é um estrangeiro. Você não assistiu aos mesmos programas infantis que os seus amigos gringos assistiram, você não vai entender algumas piadas, você fala com sotaque e talvez tenha grandes diferenças culturais por não ter aprendido as mesmas coisas que eles. Um estrangeiro sempre deve ser tratado com respeito, mas talvez você não seja. Além de frequentemente ter que explicar porquê você está lá, porquê você não é igual a eles (culturalmente falando) e porquê você não quer voltar para o seu país. O quanto você está disposto a sempre ser um estrangeiro?

Ter um emprego que talvez não seja o que você quer

Não importa qual o tipo de emprego que você tenha em outro país. Você pode gostar ou não, mas pior, talvez você não tenha outra escolha. Conheço pessoas que fizeram faculdade, pós-graduação e tinham uma carreira sólida no Brasil. Mas lá fora fazem um trabalho mais braçal dizendo que sentem falta de ter um trabalho no qual possam “pensar” mas infelizmente não tem outra escolha. Por outro lado, tenho uma amiga que sempre trabalhou de garçonete em Londres e quando finalmente conseguiu sua cidadania europeia foi trabalhar num escritório. Não gostou e voltou a trabalhar como garçonete. Ou seja, não importa qual emprego você tenha. O cenário ideal é quando você tem liberdade para escolher no qual quer trabalhar. Mas infelizmente, lá fora,  essa escolha é para poucos. E você? Está disposto a talvez não trabalhar no que você gosta e não ter outra escolha? O quanto não ter perspectiva de trabalhar no que você sempre quis interfere na sua qualidade de vida?

As respostas para cada uma dessas questões estão dentro de você. Apenas você sabe quais itens deve incluir na “soma da qualidade de vida”. E caso esteja confuso, que tal começar morando apenas por um período fora do país? Talvez você se adapte tão bem e nunca mais volte. Ou talvez você perceba que o que realmente importa está no Brasil. E aí a solução para a sua vida é mais fácil do que você imaginava.

Ilustração: Brian Rea

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*