Xangai me devolveu a autoconfiança

Xangai me devolveu a autoconfiança

Uma das oportunidades que meu MBA no Brasil possibilitava era a de fazer algumas aulas em outros países. Eu escolhi a China.

Fazia um ano que eu havia voltado a morar no Brasil depois de quatro anos nos EUA. E eu estava… na merda, para ser bem honesta. Estava recomeçando minha vida por aqui e ela não era tão fácil quanto a minha vida americana por motivos óbvios. Não gostava do meu emprego,  ganhava pouco e não tinha dinheiro para nada extra além de sobreviver em São Paulo. Me pegava o tempo todo pensando se havia feito uma boa escolha em voltar para o Brasil. Hoje penso que talvez estivesse com algum tipo de depressão na época. Eu acordava todos os dias e chorava antes de ir ao trabalho, tinha dores no corpo e estava com uma baixa autoestima. Havia engordado um monte e me sentia mal porque as amigas da minha idade estavam voando na carreira e eu estava apenas recomeçando…

Aí você deve estar se perguntando como foi que eu paguei minha viagem para a China se eu não tinha dinheiro. Bom, eu a parcelei durante uns 3 anos, enquanto pagava junto à mensalidade do MBA.

Me lembro do dia em que iria embarcar. Acho que minha situação era tão desanimadora que meus pais até vieram a São Paulo para me levar ao aeroporto. Durante o almoço que tive com eles conversávamos sobre as minhas dívidas e como eu faria para pagá-las. Eu me vi aos 28 anos quase entregando meu salário para o meu pai e dizendo: “Por favor, administre porque eu não consigo mais”. Ou seja, eu, que sempre havia sido responsável e organizada, havia perdido minha autoconfiança e esperança.

Mas em Xangai, um país completamente diferente do meu, só me restava uma coisa para sobreviver: me sentir segura e autoconfiante (eu diria que ir para Xangai era sair da minha zona de conforto se no Brasil eu estivesse confortável com a minha situação).

Os desafios na China começam pelo idioma. Ninguém fala outro idioma a não ser o mandarim. Portanto, eu precisava quebrar barreiras para me entender com os locais, me sentir segura e apontar no mapa para onde queria ir. E a cada entendimento era uma vitória!

A comida também não ajudava e como não haviam muitas opções eu tinha que comer o que eles tinham a oferecer, fosse pato caramelizado ou qualquer sanduíche do McDonalds com sabor de peixe. Big Mac? Sabor de peixe. E no restaurante, ao fazer o pedido, nunca se sabe o que será servido. Mas não havia espaço para mimimis.

Um outro (bom) problema era o fuso horário. Eu dormia apenas 3 horas por noite então tinha tempo de sobra para pensar na vida enquanto assistia MTV China. E foi na época que a Adele bombou, então imagina minhas noites chinesas entre reflexões e lágrimas ao som de Adele. Mas pior que a Adele, eram as musicas chinesas. Essas sim eram de chorar…

Fazer novos amigos era outro desafio. Haviam outros estudantes lá que eu não conhecia e naturalmente formávamos um grupo. E como você sabe, para fazer amizades é necessário confiar em você mesmo, ter auto estima e bom humor para conquistar as pessoas. E eu queria ser amiga daquelas pessoas!

A espiritualidade presente na China também me ajudou. Eu sou uma pessoa desapegada de espiritualidade, agnóstica e cética. Mas os chineses têm uma forte relação com o budismo e eu tive a curiosidade de visitar um mosteiro. E como a maioria dos pobres mortais, já cheguei com uma listinha de pedidos e incensos na mão. E não é que me ajudou a acreditar que a partir daquele momento tudo seria diferente?!

Além desses pequenos detalhes, eu estava em contato com algo que gostava de fazer, que era viajar, e isso me deixava mais feliz. E você sabe, a felicidade desencadeia uma série de outros sentimentos bons, incluindo a sensação de que as coisas não estão tão ruins assim e de que tudo pode ficar ainda melhor. E foi com essa autoconfiança e esperança que voltei para o Brasil preparada para mudar o rumo das coisas na minha vida. Decidi pedir demissão do emprego que me fazia mal. Coloquei o rabinho entre as pernas, engoli o orgulho (que já nem existia mais) e voltei pra casa dos meus pais por uns meses para procurar melhor por um novo emprego. Foram meses difíceis e eu sabia que seriam assim. Mas também sabia que era um momento de recolhimento para buscar algo melhor.

É claro que você não precisa ir até a China para adquirir autoconfiança e mudar de vida. Acredite: fazer novos amigos, comer o desconhecido e ser compreendido é mais difícil na vida normal do que durante uma viagem. Mas aprendi que sair da zona de conforto é a minha meditação, minha reflexão e onde encontro minha autoconfiança. E uma vez confiante, não há nada que me faça desistir das mudanças necessárias.

2 Comments

  1. Camila ramos

    Amanda, não pretende fazer um post com mais detalhes e dicas da sua viagem à china? Por ex: quão difícil era pra se comunicar com outras pessoas, roteiros, etc…

    • Oi Camila! Quando eu fui à China, não tinha o blog ainda e não fiz anotações de informações específicas para dar dicas. Mas vou pensar numa maneira de colocar mais informações por aqui 😉
      Um beijão!
      Amanda

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