Como é morar na Índia

A Renata foi morar na Índia em uma época de várias definições na vida: no último ano do ensino médio. Foi por um programa do Rotary e lá morou e estudou com indianos. Primeiro em Bokaro, uma cidade do interior de Bihar e depois Calcutá. E as histórias dela são demais! Sério, nunca vi histórias tão interessantes sobre morar fora do país como as dela!

Confira e me fala o que você achou.

Essa é a Renata, nos tempos de Índia
Essa é a Renata, nos tempos de Índia

Por que escolheu a Índia?

Eu era adolescente e estava tentando decidir qual vestibular iria fazer e cheia de dúvidas sobre o meu futuro profissional. E principalmente sobre a pessoa que me tornaria. Queria mudar de vida, de espírito e de comportamento. Eu tinha a opção de ir para os EUA, mas também a opção desse país diferente e misterioso… bem atraente para quem quer uma mudança. E foi por isso que escolhi a Índia.

Como você era recebida pelos indianos? Como eles te tratavam?

Fui muito bem recebida. Os indianos são receptivos e gentis. Sempre me trataram muito bem, com o devido respeito, mas como mulher tinha as diferenças culturais que no começo foram difíceis de entender. Não é fácil ser mulher lá.

Ah, então conta pra gente sobre essas dificuldades…

Quando morava em Bokaro, uma cidade do interior, eu não era permitida a sair sozinha. Somente com uma companhia masculina mais velha. Não podia usar jeans, apenas a roupa local salwar kurta ou saree. Na escola, não era permitido conversar com os meninos sozinha, e amizade próxima só podia ter com as meninas que comparadas às adolescentes brasileiras, eram bem inocentes.

Renata e sua família indiana
Renata e sua família indiana

Quais foram os choques culturais que você teve qdo chegou?

Foram vários. Antes de viajar, eu pesquisei muito sobre o país e me preparei psicologicamente para as diferenças. Eu tinha a consciência de que teria que me esforçar para me adaptar à nova realidade e não os indianos a mim. Isso me ajudou muito, mas tive momentos muito difíceis, culturalmente falando. Enquanto morei na cidade do interior, não podia fazer qualquer atividade extra pela tarde, a não ser aulas de canto e inglês. E tudo sozinha! Até que consegui me mudar para Calcutá, uma cidade bem caótica mas cheia de vida e que me trouxe muitas alegrias e experiências.

Como era a casa que você morava e a relação com a família?

Fiquei com diferentes famílias ao longo do ano que morei na Índia, então pude conviver com famílias de origens diferentes e castas. Em cada casa, era um dialeto diferente e nem todos falavam inglês. Em Bokaro, por exemplo, fiquei em três famílias. A relação era boa, e eu procurava me adaptar bem ao estilo de cada casa e das pessoas. A primeira casa era de um comerciante muito rico, então eu tinha meu quarto, banheiro e vivia com muito conforto, a casa era bem limpa, mas eu tive que aprender a conviver com o “mouse”, o ratinho que vivia no meu quarto. E apesar de pedir aos “criados” para resolver o problema, ele sempre voltava. Quer dizer, não sei se era sempre o mesmo, mas ele sempre estava lá! Como os ratos são sagrados na Índia, eles não matavam apenas tiravam do quarto. Mouse percorria todo o meu espaço e os criados diziam que eu era abençoada, pois ele gostava de ficar perto de mim. No começo ficava apavorada, não conseguia nem dormir, mas depois tive que aprender a conviver com ele, não tinha jeito…

Adoro essa história do rato! Acho que eu iria embora na hora! Tenho pavor de rato… E a outra família? Tinha esse “probleminha” também?

A segunda casa era bem diferente da primeira. Os meus “pais” eram ótimos, carinhosos e faziam questão de fazer todas as alimentações comigo, mas a casa já não era tão organizada ou limpa como a primeira. O criado deles era um sadhu baba – um místico que vive para a vida espiritual – com um rastafári enorme! Era uma figura bem assustadora e no começo eu até levava uns sustos com a presença dele calada e observadora… parecia um filme de terror, mas depois nos entendemos, ou melhor, me acostumei com a presença dele. A preocupação dele era mais a oração e meditação, ele era bem reverenciado pelos meus “pais”, mas a limpeza da casa não era o forte dele.

Com amigos que estavam fazendo intercâmbio também
Com amigos que estavam fazendo intercâmbio também

E você tinha uns piriris? Todo mundo fala que se você não tem piriri na Índia, você não foi pra lá…

Tive sérios problemas com a alimentação e com a água. Diarreia braba por um bom tempo e cheguei a ficar oito quilos mais magra. Mas não me importava, comia de tudo e com muita pimenta. E passei um ano sem comer carne aproveitando que a maioria das receitas é vegetariana. Nada de cabeça de macaco como no filme Indiana Jones… .

É fácil conhecer as pessoas na Índia? Quem eram seus amigos?

Na cidade do interior não fiz amigos, apesar de ter frequentado a escola, mas em Calcutá fiz vários amigos indianos. Tive a sorte de ficar em uma família com dois jovens da minha idade, descolados e que tinham morado na Inglaterra. Eles me apresentaram a todos os seus amigos abastados de Calcutá. Levavam uma vida mais moderna, apesar das tradições indianas. Foi uma temporada de diversão e exatamente o que uma jovem de 18 anos do ocidente e do Brasil espera: festas ótimas, restaurantes, festivais, encontros nas casas… tudo normal para a idade que tinha. Mas claro que existia uma diferença no comportamento dos meus amigos dentro e fora de casa. A minha “irmã” saía de casa com roupa indiana, mas na bolsa estava o top e a saia. E ela se trocava no carro. E, finalmente em Calcutá, eu consegui usar meu jeans e me sentir mais livre. Fiz amizade com um grupo grande de indianos que mantenho contato até hoje.

Pelo jeito existe uma grande diferença entre morar no interior da Índia e em uma cidade grande, né?

Calcutá foi a salvação do meu intercâmbio na Índia. Se continuasse em Bokaro, não iria aguentar. A mudança foi um dos fatores que contribuíram para eu ficar um ano na Índia, diferente de alguns intercambistas que não ficaram mais que três meses porque não aguentaram o choque cultural.

India-Taj Mahal(1)
Viajando pela Índia

Você viajou para mais algum lugar enquanto estava lá?

Viajei para vários lugares depois que me mudei para Calcutá. Passei praticamente oito meses viajando pela Índia e arredores, conheci lugares incríveis: Butão, Nepal, Himalaia, o Centro e Norte da Índia…nessas andanças, descobri uma cidadezinha que me marca até hoje e espero voltar lá.

Qual? Conta!

Darjeeling. Ela fica na parte inferior do Himalaia, uma altitude média de 2.134 metros, e o seu nome é uma combinação das palavras tibetanas que quer dizer “A Terra do Raio”. Ela é bem conhecida pela famosa indústria de chá e também pelo caminho de ferro Himalaia, classificado como patrimônio da humanidade pela UNESCO. Eu fiquei um mês por lá.  Era para ter ficado cinco dias apenas, mas por causa de uma infecção acabei tendo que ficar mais tempo até me recuperar. Tive a sorte de ficar hospedada na casa de uma artista de cinema do Nepal que tinha abandonado a carreira para se casar por amor com um indiano – uma coisa rara no país, que cultiva o casamento arranjado. Darjeeling me marcou tanto que voltei lá mais duas vezes depois. A paz do lugar, habitado boa parte por tibetanos, é contagiante, traz algo especial para a alma…me sentia à vontade para andar pelas ruas, ver o movimento daquelas pessoas pequenas em tamanho, mas tão simpáticas e de alma grande. A arquitetura inglesa misturada com as casinhas tibetanas dá um ar sofisticado e bucólico ao lugar. Os mosteiros budistas também era uma atração a mais, adorava ficar lá batendo o sino ou simplesmente observando os monges com seus mantras, aquilo me trazia uma paz. Relembrar isso me faz querer voltar…

Renata frente ao Taj Mahal
Renata em frente ao Taj Mahal

E a questão religiosa? Você frequentava os templos?

Eu fiz questão de virar indiana por um ano e frequentava os templos com fazendo questão de conhecer com todo o respeito e seguir os rituais. Me vestia apropriadamente e me aventurava em diferentes templos, alguns bem assustadores. Em uma das vezes, acompanhei minha família para rezar em um templo “especial”. Cara, como me arrependi de ter ido…era o Templo Sagrado dos Ratos, onde eles são considerados deuses. Cheguei animada para ver mais um templo mas só tinha rato em todos os lugares! Ao entrar sem sapatos, vi aquela quantidade enorme de ratos comendo, bebendo, pulando, dejetos no chão… A única coisa que pensava era que pegaria uma doença. Deu desespero e vontade de sair correndo… mas só me enrolei no saree e fiquei quieta. Agradeci à família e disse que não estava me sentindo bem. Claro que não consegui meditar e apreciar o lugar.

E namorados indianos? Era possível namorar?

Eu me apaixonei na Índia! E isso me motivou a ficar mais tempo… Como as famílias moram juntas e os homens não saem de casa, acabei me apaixonando pelo primo do meu “irmão”. Foi uma relação diferente, nada de beijos ou abraços. A nossa diversão era passear de carro juntos e conversar por horas. Os pais logo perceberam e fizeram questão de fazer meu mapa astral com o dele e o resultado, claro, foi péssimo. Dizia que financeiramente nossa “energia” não era compatível e semanas depois a mãe fez questão de me mostrar várias fotos de pretendentes para casar com ele. Resumindo, ela teve uma conversa séria comigo e com ele: “vocês são de culturas diferentes e a Renata não vai morar aqui e nem se transformar em indiana”. E eu até tentei: me vestia como tal e tentei adquirir as qualidades de uma boa moça indiana, falar baixo, cozinhar, cantar e dançar, mas confesso que não funcionou…

São muitas as histórias e lembranças… Ainda hoje escuto comentários do tipo: você é louca de ter morado lá ou o que você foi fazer lá?

Mas foi uma das melhores experiências que tive na minha vida, sou outra Renata depois da Índia, com mais fé na vida e nas pessoas.

 

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