Maya Bay na Tailândia: a realidade por trás de #paraíso

Maya Bay na Tailândia: a realidade por trás de #paraíso

Era uma vez, uma ilha paradisíaca da Tailândia que, depois de um filme hollywoodiano, se tornou um inferno paradisíaco.

Essa é a história de Maya Bay, mais conhecida como a praia do filme “A Praia”. Antes do filme, conforme os locais me contaram, era mais uma ilha bonita, sem esse destaque todo. A mesma coisa com a James Bond Island (olha só, essa até ganhou o nome do filme!). Dois lugares lindos, mas que sofrem com um turismo desenfreado.

Quem vem me acompanhando pelo Snapchat por esses dias, deve ter visto a minha chegada as duas ilhas. A areia de ambas cobertas por grupos, fotos, selfies, lixo, muitos barcos, e tudo aquilo que você já pode imaginar de uma farofa das ruins.

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Maya Bay real. Foto surrupiada do inthepinkandgreen.com porque notei que só fiz snap da bagunça

Maya bay certamente é a praia mais bonita que eu vi aqui na Tailândia (estive em Phuket, Railay, Koh Lanta e Phi Phi). A única com um potencial para de fato me surpreender. E teria me surpreendido se não estivesse tão lotada. Engraçado que eu olho as fotos (as quais escondi toda a muvuca) e acho o lugar mais bonito do que quando vi pessoalmente.

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Maya Bay escondendo a muvuca

Eu tinha duas soluções para encontrá-la vazia (e dois problemas):

  1. Poderia ter pego um barco no qual você dorme na ilha e a vê logo cedo, antes dos turistas chegarem, o Maya Bay Sleep Aboard, o único e com capacidade para vinte pessoas. O problema é que ele só tinha datas para o próximo mês.
  2. Alugar um barco particular e chegar logo cedo, antes de todos os barcos turísticos da ilha. Mas aqui eu encontrei dois problemas: eu teria que dormir na ilha de Phi Phi (o que eu já havia decidido não fazer e já vou explicar porquê) e também porque viajo sozinha e não me senti confortável em ficar sozinha com um barqueiro no meio do mar mesmo tudo parecendo seguro por aqui.

Mas depois de ter passado pelo show de horror em James Bons Island, um lado meu bastante masoquista e “faço tudo pelo meu trabalho” já estava achando interessante chegar com a muvuca em Maya Bay e mostrar que para você conseguir uma foto daquelas que todo mundo posta do lugar, não é tão simples assim. É uma realidade pouco mostrada por aí. Maya Bay costuma apenas ser representada pela #paraíso e boa.

E por que ninguém mostra? Por que estamos acostumados com a muvuca? Por que gostamos da muvuca? Não nos importamos com ela? Por que não queremos admitir que “olha é linda, mas a experiência foi horrível”? Por que se a gente vem até o outro lado do mundo para ver isso como é que vai reclamar, né?

Cada um tem a sua resposta. Muitas pessoas se identificaram com a minha experiência, outras (a minoria) me criticaram por mostrar essa realidade de Maya Bay no snapchat e, ainda bem, rindo de tudo o que eu via, incluindo uma turista tirando uma foto abrindo o espacate em frente aos long tails entre outras coisas – prazer, meu nome é Amanda Noventa e eu adoro sarcasmo, principalmente nos momentos de dureza .maya-bay-amanda-viaja

O fato é que eu quis mostrar a minha experiência real com Maya Bay (e como ela é para a maioria das pessoas). Assim como eu gosto de mostrar todos os outros lugares que eu vou. Esse é meu papel como blogueira de viagem num blog com experiências super pessoais, inclusive dizer se eu gostei de um lugar ou não. Esse é o Amanda Viaja (se você quiser blogs que sempre vão dizer que tudo é maravilhoso, que as viagens são perfeitas e que o mundo não tem problemas, posso te indicar alguns).

Mas voltando à Maya Bay… Eu não quis ficar em Phi Phi porque conversei com algumas pessoas, li outras (um exemplo é o artigo do Nomadic Matt) e fiquei sabendo: “É um lugar sujo, lotado e caro”. Eu já tinha não gostado de Phuket. Mesmo assim, mesmo depois de ter visto o horror da James Bond Island, eu quase fui pra Phi Phi. Novamente para ‘mostrar a realidade que ninguém fala por aí’. Mas aí pensei: “Amanda, acho que isso que você chama de trabalho está te levando para muitas roubadas. Melhor achar um lugar de fato agradável onde você será feliz” . E foi aí que decidi vir para Koh Lanta, e fazer apenas um tour por Phi Phi e Maya bay, observando a muvuca apenas por um dia para ‘fazer o meu trabalho’.

Realidade x experiência autêntica

A super jornalista de viagem Dri Setti, do Achados da VT, fez um post contando um pouco sobre a minha experiência em Maya Bay e citando um outro texto recente do Pico Iyer no NY Times que diz assim:

“A intenção de uma viagem é, no fundo, buscar a real confirmação de nossos sonhos irreais. Nossa noção dos destinos – o romanticismo e as imagens que projetamos sobre eles – são sempre menos atuais e sutis do que os lugares em si. Eis o motivo pelo qual desviamos as lentes dos shopping centers e da marca do Mc Donald’s em Varanasi e apontamos para os corpos próximos aos templos”. 

Esse talvez seja um dos motivos pelos quais a maioria continua vindo para Maya Bay e desviando os olhos da muvuca para enxergar o paraíso. Entendo.

Mas o que fazer com o turismo descontrolado?

Porque, eu não sei vocês, mas eu acho muito chato chegar num lugar maravilhoso e ver que ele está numa situação de lotação que eu nem consigo curtir. Eu acho inclusive destruidor para o mundo, para o meio ambiente. Eu não consigo achar isso legal.

Sim, em Maya Bay você pode dormir no barco para chegar na praia mais cedo e não pegar a muvuca. Mas veja, isso é apenas um remédio e não uma solução. O barco só serve para vinte pessoas diariamente, o que é ótimo. Mas e se você não quer ou não pode dormir no colchonete? E se você quiser curtir Maya Bay em paz, com seus filhos pequenos e não pode colocá-los para dormir num colchonete de um barco. E se você é um mochileiro, como eu, que não sabe onde estará amanhã e não pode reservar com mais de um mês de antecedência uma viagem dessa? O barco do sleep aboard é maravilhoso, mas é para pouquíssimos. Assim, como contratar um barco particular para chegar mais cedo na ilha. São soluções privadas apenas e não resolvem o problema do turismo descontrolado.

Logo que a Dri Setti postou seu texto no Facebook, uma menina que se diz turismóloga apareceu comentando com uma “ótima” solução: “Se você não quer encontrar pessoas, não saia de casa. Muito menos do seu país”.

Você, turismóloga, já que passou anos estudando turismo, eu espero uma solução melhor vinda de você para um problema de turismo insustentável do que simplesmente dizer para as pessoas não conhecerem esses lugares já que elas não gostam dessa bagunça.

Qual seria a solução? Não sei (não sou turismóloga). Mas posso tentar algumas delas que talvez funcionem melhor do que pedir para as pessoas não saírem de casa: controlar o número de pessoas que visitam o lugar diariamente, educar a população local sobre como continuar tendo a sua renda com o turismo sem degradar o meio ambiente, organizar o turismo da ilha para que você, turista, saiba como se organizar e como deve agir ao visitar a ilha…

Isso funciona para Machu Picchu, um parque famoso no mundo todo e que, apesar de ter turistas não é insuportável, lotado, que vai te proporcionar uma experiência ruim.

Isso funciona para Fernando de Noronha, que tem um número controlado de visitantes e com regras restritas para o meio ambiente (quem entra lá, paga uma taxa e já sabe como tudo funciona). E ainda assim, é um paraíso – alguns dizem que até mais do que a Tailândia.

Isso funciona inclusive para Koh Lanta, a ilha na qual me encontro na Tailândia, no momento. Eles criaram o National Park aqui. Você paga US$5 para entrar e é tudo tranquilo, um lugar onde você relaxa numa boa, macacos pulam de um lado para o outro e você consegue ouvir o mar, fazer trilhas.

Costa Rica, Patagônia, Ilha do Mel, Yosemite Park… Se existe solução para esses lugares, deve existir uma para Maya Bay também. Eu só não sei exatamente qual.

Porque, desculpe, eu sou apenas uma blogueira de viagem. E pelo que dizem por aí, eu só tenho duas opções: ignorar que isso acontece ou não sair de casa.

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Pelo menos a foto ficou boa, né?

 

Veja um outro post que fiz no Estadão, quase uma continuação dessa história: Quatro ilhas da Tailândia serão fechadas por excesso de turistas.

5 Comments

  1. RODRIGO ALENCASTRE

    Parabéns, Amanda, pelo relato incrível que mostra os bastidores do que encontraremos ao aportar no ‘paraíso’. Mais do que uma experiência de viagem, seu texto propõe uma reflexão sobre como interagimos com nosso planeta. Ao contrário de muitos, que só querem alguns likes em redes sociais.

  2. Phillipe Karan

    Amanda, eu entendo esse aspecto que voce deseja mostrar, “o lado ruim das coisas”, mas tudo sempre vai ser uma questao de ponto de vista. Em um copo com agua pela metade, uns dirao que esta meio cheio e outros meio vazio. Eu sei que a vida sempre nos faz ter razao, ou seja, sempre recebemos aquilo que enxergamos.
    Concordo em acompanhar seus relatos como forma de propor solucoes sustentaveis para o turismo, mas nao pode parar nos relatos..

    • Oi Phillipe, não entendi direito o que você quis dizer com “mas não pode parar nos relatos”. Mas se você quis dizer que além de propor, eu deveria fazer, infelizmente acredito que não tenho competência para mudar uma situação tão complexa ainda mais num país que não é meu. Não sou especialista e nem profissional do assunto. Além disso, minha pretensão nunca foi mudar o mundo. Meu trabalho de blogueira é apenas relatar e dar a minha opinião pessoal e é isso que estou fazendo. E você? Pode fazer alguma coisa? Beijão

  3. Oi, Amanda!
    Muito bom o texto, a reflexão e, sobretudo, que você mostrou a ‘vida como ela é’!
    Também procuro mostrar muito da realidade no ‘Devaneios’, pois entendo que este também é o nosso papel. É uma lástima que tenham que fechar ilhas na Tailândia, por sinais de degradação. Eles mesmos precisam se preparar e impor limites para preservar o paraíso que possuem; o turismo também sai do controle! Vamos ver a minha real opinião quando voltar de lá (em março!).
    Grande bj

  4. sergio vieira

    olá Amanda.
    Infelizmente, em alguns destinos de viagem nossos sonhos entram em conflito com a realidade. Entendo, mas reluto em aceitar, o comportamento de muitos turistas que acreditam que uma inesquecível experiência de viagem é uma sequência interminável de fotos e selfies que só mostram o seu melhor perfil. Mas cada um tem suas expectativas e objetivos em uma viagem, fazer o quê né? Prefiro nem entrar nos aspectos de comportamento, como deixar sujeira, furar filas, comportar-se como um grupo escolar da primeira série primária em excursão. Acredito que em muitas situações a limitação e o estabelecimento de regras de visitação são a única solução. É a “pesca predatória” de turistas, e somente quando esses “peixinhos” se tornarem escassos é que tais providências serão tomadas. Nesse sentido, artigos como o seu tem grande valor, ao mostrar o que está por trás das lentes, aquilo que não se vê nas propagandas de viagem.

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