Somos tão jovens

Somos tão jovens

Os dois primeiros sinais que me mostraram que eu estava envelhecendo aconteceram há mais ou menos três anos.

O primeiro foi quando fiz a viagem para Cusco no Peru. Eu estava sozinha, mas conheci uma turma de brasileiros, arranjei namorado, fui para a balada todos os dias e me entreguei completamente à viagem. Eu era a Amanda mais feliz que você poderia ver.

Em uma das noites, no bar do hostel, um dos brasileiros que eu havia conhecido me perguntou: “Quantos anos você tem? Porque eu queria saber até que idade eu vou poder fazer isso de ficar viajando, curtir a vida e tal”.

Eu havia acabado de completar 31 e ele devia ter uns 24. Então, foi ali no bar de um hostel, com uma cerveja na mão que eu me dei conta: eu havia envelhecido e estava na cara.

Mais ou menos nessa época veio o segundo sinal – uma ruga na testa. Ruga que começou a aparecer nas fotos e que fica mais marcada ainda assim que acordo. As pessoas dizem que exagero, mas não negam: ela está ali. E o pior, me incomoda.

Pode parecer uma coisa óbvia e vocês devem estar pensando: “Ué, Amanda, você achou que nunca fosse envelhecer?”. Eu sabia que iria. A gente até brinca com as amigas dizendo por aí o insignificante “to velha para essas coisas”. Insignificante porque a gente nunca se sente realmente velha quando fala.

E é sobre isso que eu queria falar: a diferença entre se sentir velha e envelhecer de fato.

Ninguém é velho

Pode ser que eu esteja errada, mas acho que ninguém se sente velho. Nem aos 30, nem aos 50, nem aos 60 e assim vai. Porque sempre disseram pra gente que velho é uma coisa que não achamos que somos: uma mistura de incapaz com gagá. Nunca nos sentimos assim (até mesmo quem é gagá não sabe que está gagá, então não sente nada). Enquanto estamos fazendo o que temos vontade está tudo certo. Pode ser ler um livro, fazer uma viagem, jogar dominó na praça, nadar ou ir até o supermercado. E graças ao desenvolvimento psicológico humano a gente sempre tem vontade de fazer aquilo que se é capaz. Então está sempre tudo certo.

A gente só sente que está envelhecendo quando algum fator externo nos aponta. Pode ser uma ruga que aparece, o desejo de engravidar quando já não se pode mais, andar de ônibus de graça, alguém te oferecer um assento de idoso quando você nem está se achando um idoso e assim vai. É sempre algo de fora que vem avisar que estamos envelhecendo.

Redefinindo o envelhecimento

Já faz algum tempo que penso sobre esse assunto. Eu não gosto de ficar achando que existe idade para fazer as coisas que se tem vontade. Eu faço o que tenho vontade de fazer sem me importar com a idade.

Exemplo: hostels sempre foram vistos como lugares para a galera na casa dos vinte. Eu vivo me hospedando neles e encontro várias pessoas da mesma idade ou mais velhas (uma vez dividi o quarto com um casal de finlandeses que deveria ter uns 70 anos).

Outra coisa. Estou aqui, aos 33 anos sem a menor vontade de ter filho. Minhas amigas estão procriando e eu não estou nem aí com essa história de ‘relógio biológico’. Não tenho vontade de ter filhos hoje. E se tiver no futuro, eu prefiro adotar um.

Mas eu escolho a hora. Não deixo que ela escolha por mim.

Pois eis que hoje estou comendo um pão na chapa na padoca da esquina quando olho para a TV ligada à minha frente passando Ana Maria Braga. E não é que ela falava do mesmo assunto? Como as pessoas nos enxergam com relação à idade.

Para ilustrar, transmitiram provavelmente o melhor vídeo da história do programa da Ana Maria.

(infelizmente não consegui uma versão legendada como a que ela transmitiu. Se alguém achar, me manda. Mas se você assistir já vai entender)

A descrição do vídeo no youtube resume muito bem do que se trata o vídeo:

“Quantos anos tem alguém que você considera velho? Nós perguntamos isso a pessoas da geração y e pedimos a elas que nos mostrassem como alguém “velho” se parece (os jovens mostraram o estereótipo do velho que não consegue andar). Em seguida, apresentamos a eles algumas pessoas “velhas”. Veja o que acontece quando as pessoas abandonam sua ideia ultrapassada do que é ser velho e abraçam a ideia de que envelhecer não é sobre ser diminuído – é sobre crescer”.

O fim do vídeo é emocionante, com as pessoas mais velhas fazendo coisas incríveis e ensinando aos mais jovens diversos movimentos de pilates, dança, boxing e outras coisas que sabem fazer lindamente.

O vídeo termina com uma mensagem importante: “Redefina o que significa envelhecer”.

Quando eu assisti, fiquei pensando que por mais que façamos um esforço tremendo para nos mantermos ativos, jovens – exercício físico, planos, sonhos – ainda existe uma incompatibilidade entre a maneira que nos sentimos com a maneira que os outros nos enxergam.

O video é lindo e todos os caras da geração y representam o que aquele menino de 24 anos me perguntou no hostel quando eu tinha 31. Um espanto ao ver que eu, mais velha, ainda estava viajando e curtindo a vida numa idade que ele acredita que eu já deveria estar em casa com marido e filhos (aliás o tempo passou e eu continuo viajando mais do que ele, não casada e sem filhos. Minha vida, minhas regras. E preciso esclarecer que sei que o menino não falou por mal e que não guardo rancor. Viramos amigos e estávamos bebendo juntos no último carnaval. Só citei ele aqui porque é um bom exemplo para tudo isso que eu queria explicar)

Enfim… Não sei se há como mudar a cabeça das pessoas para que elas redefinam o que é envelhecer. Mas a campanha é uma bela tentativa a ser espalhada por aí.

A melhor coisa a se fazer, já que não podemos controlar o que os outros pensam, é controlar o que nós pensamos. O que faz você se sentir jovem?

Para cada um isso funciona de um jeito. Eu não sei o segredo de algumas pessoas para se sentirem (e muitas vezes parecerem) mais jovens. Mas sei o que funciona pra mim.

O segredo da (minha) juventude

Viajar e desbravar o mundo sem medo definitivamente é uma delas. Pessoas corajosas sempre parecem mais jovens, já percebeu?

Também cuido da mente. Sou antenada, gosto de saber o que está acontecendo, participar de algumas discussões e devorar livros.

Namoro um cara sete anos mais novo. Isso aconteceu sem querer, mas naturalmente me deixa mais jovem (os assuntos, a disposição, as amizades).

Me sinto mais jovem ainda quando vou ao Tomorrowland com meu namorado, curto o festival mais do que eles e vejo que está cheio de gente da minha idade.

O fato de não me preocupar em casar e não desejar filhos também acaba me auxiliando na juventude – claro que não fiz essas opções para parecer mais jovem, mas acaba acontecendo.

O espírito livre ajuda. Aliás, acho que é o que mais ajuda. Essa coisa de fazer o que me dá na telha (taí uma gíria idosa) e não me preocupar com o que os outros pensam, me deixa livre para ser o que eu quiser. Liberdade é juventude.

Poderia ficar aqui citando uma lista de coisas. Mas é hora de você praticar a sua juventude. Pode ser gostar de ir à praia, tomar sol, fazer esporte, dançar até o chão, ouvir Justin Bieber e até ler livro de vampiro.

O que importa é cuidar da própria cabeça para que “ser jovem” deixe de ser uma preocupação, perca seu sentido literal e passe a significar algo muito mais leve – “ser feliz”.

6 Comments

  1. Núbia Gomes

    Amanda, te admiro! Tenho sua idade e aquela ruga na testa e ando me achando meio envelhecidinha, mas quer saber? Você está certíssima!
    Obrigada pelo lembrete! O importante é estar vivo. Amei o vídeo!

  2. Adorei conhecer o seu blog! Tenho 29 anos, solteira, (não quero casar, não me vejo assim) não tenho filhos e nem pretendo ter, se um dia quiser também quero adotar.
    O que mais quero nessa vida agora é viajar cada vez mais e aproveitar o que muitas vezes não aproveitei.
    A liberdade não tem preço e é verdade, temos que trabalhar em sermos mais jovens na mente, mudar esse conceito que a sociedade prega e ter história para contar!

  3. Helen Souza

    Amanda, acabei de me separar e tenho 33 anos…
    Confesso que achar vc foi maravilhoso, vc nem imagina como está me inspirando nessa “fase difícil”.
    Estou criando coragem para fazer minha primeira viagem sozinha!
    Nunca deixe de escrever para nós!
    Grande beijo!

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